PHARMATECH 5 · REPORT · AGOSTO 2026
Mais de 130 líderes, 55 farmacêuticas e quatro painéis no Auditório Sindusfarma para debater as forças invisíveis que estão redesenhando a jornada do paciente — e o que a indústria precisa fazer agora.
Vivemos um momento de inflexão. A inteligência artificial deixou de ser promessa e virou infraestrutura: ela organiza buscas, responde perguntas médicas, orienta pacientes antes da consulta e começa a moldar o que médicos leem, recomendam e prescrevem.
Nesse contexto, o mote do PharmaTech 5 — IA-first, Human-always — não é uma aposta sobre o futuro. É uma orientação para o presente: adotar a tecnologia de forma estratégica sem abrir mão do que só o humano sabe fazer. Os quatro painéis do evento foram atravessados pela mesma pergunta, feita de ângulos diferentes. Aqui estão os pontos que mais importam.
No Brasil, mais de 13 milhões de pessoas convivem com doenças raras — e cada uma passa, em média, de cinco a sete anos numa peregrinação de consultas e diagnósticos incorretos antes de chegar ao tratamento certo. Com apenas 314 geneticistas no país, a escassez de especialistas é estrutural. O que mudou nos últimos dois anos é por onde a IA entrou nessa jornada: não pela porta dos hospitais, mas pelo bolso dos pacientes.
Os dados vieram de pesquisa inédita da LLYC em parceria com a Casa Hunter, mapeando o comportamento de pacientes com HPN, Duchenne e Síndrome de Hunter nas principais plataformas de IA. O achado é revelador e preocupante ao mesmo tempo: mais de um terço das respostas confundia diretrizes internacionais com critérios locais da Anvisa, omitia etapas regulatórias e, em alguns casos, indicava tratamentos inadequados ao contexto brasileiro. O problema não é a IA mentir — é ela não distinguir o que sabe do que não sabe.
“A IA não é o Google. Ela entrega uma resposta única, com uma autoridade que o Google nunca teve. E isso muda tudo na jornada do paciente.”
Luiz Marcelo · Digital Solvers by LLYC
Para a indústria, o diagnóstico foi direto: a inteligência artificial já é um público estratégico. O mesmo esforço dedicado à formação de médicos e à parceria com associações de pacientes precisa passar a incluir o trabalho ativo de alimentar os LLMs com informação correta, calibrada e regulatoriamente adequada. Esse campo tem nome — GEO, Generative Engine Optimization — e quem não começar a atuar nele agora estará, em breve, ausente das respostas que mais importam.
“O médico virou o curador da verdade digital. Ele precisa desconstruir o que o paciente já decidiu antes de entrar na sala de consulta.”
Giuliana Gregori · Diretora de Healthcare · LLYC
Um levantamento apresentado no painel mostrou que 85% dos pacientes chegam à consulta já com pesquisas feitas em plataformas de IA. Não é curiosidade — é um reposicionamento do papel do médico, que deixa de ser a primeira fonte de informação para virar, em muitos casos, a segunda opinião que o paciente recebe ao sentar na cadeira.
A pesquisa identificou três perfis de "preparo digital": o Sherlock Holmes, que pesquisou para testar e confrontar o médico; o colaborativo, que quer construir consenso e compartilha o que encontrou; e o de embate, que já chega convencido do próprio diagnóstico e busca confirmação, não escuta. Em todos os casos, o médico assume uma função que as faculdades raramente ensinam: desfazer crenças formadas por algoritmos, com empatia e sem perder a autoridade clínica.
“85% dos pacientes chegam à consulta já com informação de IA. O médico é, em muitos casos, a segunda opinião — na própria sala de consulta.”
Cássio Damacena · IHEA
Um dos principais riscos do cenário é a sycophancy, o viés de concordância dos grandes modelos: eles tendem a confirmar o que o usuário quer ouvir em vez de corrigir premissas erradas. Na saúde, isso pode retardar diagnósticos, estimular automedicação e criar falsas certezas em momentos de alta vulnerabilidade.
“A confiança na IA caiu 28% no último ano. Ainda bem. É bom que as pessoas comecem a entender que ela não responde absolutamente tudo.”
Vivian Raffaeli · Diretora de Marketing, Dados e Tecnologia · LLYC
No campo metodológico, o painel trouxe um dos debates mais inovadores do evento: a pesquisa com audiência sintética. Grupos formados por agentes de IA, calibrados para representar perfis reais de pacientes, cuidadores e médicos, alcançaram de 90% a 95% de correlação com amostras humanas reais — em um estudo de referência, 7 agentes sintéticos produziram resultados equivalentes a um painel de 1.500 pessoas. O modelo híbrido, base humana combinada com expansão sintética, desponta como a abordagem vencedora.
Do lado da prática clínica, o Dr. Tiago Szego, cirurgião bariátrico do Hospital Leforte, ilustrou a transformação no dia a dia do consultório: usa OpenEvidence para busca científica com embasamento acadêmico, transcrição de consultas por voz com apoio de IA e um CRM estruturado para gestão de pacientes. Um exemplo de como a tecnologia amplia a capacidade do médico sem substituí-lo. No mesmo painel foi lembrado que a cirurgia bariátrica recuou 40% mundialmente com a chegada dos análogos de GLP-1 — e que, mesmo assim, o cuidado humano especializado permanece insubstituível nos casos de obesidade severa.
“A gente está falando de IA, pessoal, como se fosse normal. Mas grande parte da população não tem acesso e não tem conhecimento.”
Dr. Tiago Szego · Hospital Leforte
"Direct to Patient não é proibido no Brasil." A frase sintetizou o painel. Enquanto as empresas aguardam clareza regulatória, o paciente avança — pesquisa, compra, decide e usa medicamentos com ou sem a presença da indústria.
A distinção conceitual é o ponto central. O Direct to Consumer prescrito — propaganda de medicamentos tarjados direto ao consumidor — é proibido pela RDC 96/2008. Mas o Direct to Patient, entendido como canal e serviço (e não propaganda), opera em território legalmente permitido.
A RDC 96/2008 é clara: a comunicação promocional de medicamentos tarjados diretamente ao consumidor é proibida no Brasil. Não é interpretação, é lei federal. E a indústria, em sua maioria, parou aí — usou a proibição como fronteira total, quando na verdade ela delimita apenas uma parte do território.
Programas de suporte ao paciente (PSPs), plataformas de aderência, educação terapêutica e serviços ao paciente não estão proibidos. O Direct to Patient é canal e serviço, não propaganda. O espaço existe. O que falta é decisão de ocupá-lo.
“A doença crônica não demanda a lógica do modelo de sistema de saúde que a gente tem hoje, que é o hospitalocêntrico. Ela é a lógica do cuidar.”
Dr. Fabio Moreira · Sindusfarma
“A última experiência do seu cliente em qualquer outro serviço é o mínimo que ele vai esperar de você.”
Paulo Crepaldi · ING Marketing & Training · Rocketbase Venture Studio
Pesquisa do Sindusfarma com a Digital Solvers by LLYC e a Pesquise Mais confirmou: o desafio não é começar, é escalar com inteligência e dados. Com a regulação em revisão (RDC 96/2008, RDC 44/2009 e Lei 15.537/2026), abre-se uma janela estratégica para quem se posicionar antes do fechamento da norma. O painel encerrou com uma provocação sobre o próximo horizonte — o modelo agent to agent (A2A), em que agentes de IA dos pacientes negociarão diretamente com agentes das farmacêuticas. Quando isso acontecer, a pergunta deixa de ser "como falar com o paciente" e passa a ser "como estar presente quando o agente dele tomar a decisão".
O Brasil tem 773 mil CRMs ativos, mas apenas 678 mil médicos únicos — um erro de 14%, invisível para quem usa bases não depuradas e grande o bastante para distorcer qualquer estratégia de marketing médico. A mensagem foi clara: antes de falar de canais, formatos ou automação, é preciso acertar a base.
A demografia revela uma medicina em transformação acelerada. Pela primeira vez na história, o número de médicas mulheres superou o de homens no Brasil. Mais de 62 mil novos médicos entraram no mercado em 2025, um ritmo que deve levar o país a 1,15 milhão de profissionais ativos até 2035. Ao mesmo tempo, 53% não possuem RQE — reflexo da democratização do acesso à medicina e das pressões que empurram recém-formados ao mercado sem especialização formal.
Cada tendência tem implicação direta: o profissional mais jovem consome conteúdos mais curtos; a médica com filho pequeno tem horários de consumo distintos; o generalista sem RQE precisa de informações diferentes do especialista historicamente priorizado. Tratar todos com o mesmo e-mail genérico não é só ineficiente — é desperdiçar a chance de construir relacionamento com um público que cresce 60 mil unidades por ano. Hoje, 40% dos médicos brasileiros não recebem visita de representantes: para esse universo, o caminho é digital, com dados próprios, ativação por CRM, transição do multicanal para o omnichannel e custom audiences que alcançam médicos sem depender de lookalike genérico.
“Se a gente ainda está operando campanha como operava dois anos atrás, estamos pra trás. Tecnologia habilita — mas é preciso querer mudar.”
Cristina Machiavelli · BioLab Farmacêutica
“Não é possível estudar médicos sem estudar sistema de saúde.”
Dr. Alex Jones Cassenote · Epidemiologista e bioestatístico, doutor em Ciências pela USP
O painel fechou conectando dados e responsabilidade: um estudo da UFRJ mostrou que informações falsas sobre saúde proliferam sete vezes mais do que conteúdos com embasamento científico. Nesse cenário, a indústria farmacêutica — única detentora de dados clínicos reais e referenciados — tem não só o direito, mas a responsabilidade de ocupar os canais onde médicos e pacientes buscam informação.
REPORT COMPLETO
A versão completa reúne os dados de cada painel, as pesquisas inéditas apresentadas no evento e os perfis de todos os moderadores e palestrantes.
Quero o ReportA vertical de saúde da LLYC, presente em 13 países e 30 escritórios, atua na intersecção entre comunicação estratégica, dados e inovação. Nossa atuação se organiza em quatro pilares: Marketing Solutions, Tech & AI, Data Driven Marketing e Digital Experiences.
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